
Antes de mandar sua equipe e o mandado à minha casa, peço, encarecidamente, que leia meu relato para que tenha mais provas de como eu – ou a língua portuguesa se assim for – sou culpada.
Desde pequena gostei da escrita e leitura. Dedico-me aos livros 12 horas por dia, dos meus 27 anos. Aos 13, fui levada a um psiquiatra, pois uma de minhas professoras detectou algo anormal em minha leitura e interpretação. Não era algo que precisasse reprovar-me, mas ao estudar conotação, obtive nota zero na avaliação, enquanto que as demais matérias sempre garantiam um dez em meus boletins.
O médico detectou uma disfunção. Meu cérebro não possui o jeitinho brasileiro de ser. Em todas as minhas leituras, sempre interpreto o significado literal das palavras. Na época, como eu gostava muito de desenhos animados, ele exemplificou comparando-me com o Bob, do desenho O Fantástico Mundo de Bob. Ao ouvir um “pé da letra”, por exemplo, não conseguia interpretar como “um sentido literal”, mas imaginava um pé em cada letra que escrevia.
Tentamos por vários anos corrigir minha disfunção. Decorei todas as conotações mais usadas entre as pessoas, mas sempre preciso pedir antes se é para interpretar a frase dita literalmente ou figurativamente. Neste quesito, acredito que meus problemas acabaram.
Depois de aprender a conviver com minha disfunção, resolvi que poderia fazer dela, minha profissão. Hoje sou professora de português e mestre
Há várias palavras na língua portuguesa que são usadas na hora errada, no lugar errado. Poucos sabem, mas há palavras, que mesmo parecendo sinônimos, possuem um significado diferente. Algumas dessas palavras continuam a ser sinônimos nos dicionários, mas não são só estudiosos da lingüística que dão significado a elas. Portanto, há palavras que possuem definições que até mesmo a psicologia atribuiu. É o caso de escutar e ouvir, as palavras que mataram o homem na semana passada.
Fiz um artigo sobre esses sinônimos há algum tempo. Sai nas ruas conversar com as pessoas, para pesquisar se elas sabiam qual a diferença entre escutar e ouvir. Nenhuma das pessoas entrevistadas disse-me certamente que reconhecia a diferença, só arriscavam o palpite. Houve um, inclusive, que afirmou não haver diferença. As outras dez pessoas com quem falei, dividiram-se entre os que acertaram e erraram.
Depois de tanto estudo, é claro, aprendi a diferença e o porquê dela existir. Não ache que estou subestimando seu conhecimento da língua portuguesa, mas acho oportuno, como este documento pode ser considerado uma confissão, explicar qual a diferença. Ela é simples, ouvir é perceber pelo sentido da audição e escutar é estar atento para ouvir e interpretar. É por ser tão simples, que não achava que alguém poderia errar.
Estávamos em uma aula particular, eu, o homem e um telefone celular. O homem desmaiou. Liguei imediatamente ao pronto atendimento, a fim de saber qual procedimento a tomar. O enfermeiro disse-me que OUVISSE o seu coração, e se houvesse algo anormal, que chamasse uma ambulância, pois poderia ser somente uma queda de pressão. Para mim, algo anormal de ser ouvido, é não ouvir. Mas o seu coração batia. Se o enfermeiro pedisse-me que escutasse seu coração, eu teria percebido que ele estava batendo rápido em demasia e teria chamada a ambulância. Posso ser acusada por ter me dedicado tanto à lingüística e esquecido de ter estudado um pouco de primeiros socorros. Mas agora, podemos acusar outro pela morte: o enfermeiro que nem mesmo domina sua língua.
- Absolvida!

Não deveria estar escrevendo isto, pois se alguém ler, provavelmente irá descobrir o nosso segredo. Quando você me apresentou sua máquina do tempo achei ser uma boa idéia. Como jornalista poderia contextualizar minhas notícias com precisão, visitando o passado. Naquele momento, sinceramente, nem imaginei em visitar o futuro. Jamais pensei que conheceria um computador, muito menos que viciaria. As pessoas do futuro são muito céticas e as máquinas do futuro não passam de objetos de comédia de filmes pastelão de Hollywood. Mas precisava lhe contar como o jornalismo mudou.
E pensar que há duas semanas eu estava aí, neste ano, em um momento jornalístico em que os jornais demoravam meses para serem produzidos e lidos por todos. Por horas, ficávamos preocupados com a falta de notícias e com a sobra de espaço no impresso. Aqui, os jornalistas morrem, literalmente, por ser o primeiro a noticiar. Disseram-me que há poucos anos o jornalismo quase não havia perdido a essência, porém, meu caro amigo inventor, neste ano em que estou, tudo é confuso.
Primeiro criaram o computador, que facilitou. Depois vieram umas câmeras de vídeo, que colocaram vida nas fotografias. Veio também uma máquina de fotografar que nem necessita de revelação. Mas o maior dos marcos e o que me indigna neste momento é a rede das redes, a internet, como chamam. Não sei bem como lhe explicar, sem que conheça o computador fica realmente difícil. Quem sabe com um pouco mais de pesquisa e depois de entrevistar algum técnico, você, que é inventor, entenda. Porém, agora, vou me conter a minha crítica.
Na nossa época, não diferenciávamos notícia fria e quente – esta atual, que precisa ser publicada imediatamente, já aquela, de assunto menos relevante que pode ser publicada a qualquer momento. Tudo era frio e quente. Tudo era novidade. Tudo era por diversas vezes revisado, sem erros, sem processos. Neste ano em que tive o prazer e desprazer de cair, os jornalistas são tão fascinados por ser o primeiro que se esquecem da apuração. A linguagem é concisa, direta
Há uma briga imensa entre veículos, que, diga-se de passagem, são muitos. Até a expressão “diga-se de passagem” virou chavão. Um veículo critica o outro por ter notícias velhas, mesmo que elas tenham acontecido a menos de uma hora. Na internet, não há restrição de escritores, qualquer um fala o que quer para quem quiser ler. Muitas vezes, notícias confundem-se com desabafos, como o meu. Você, metódico como és, estaria louco. Até mesmo os jornais locais cobram para notas de falecimento, de corriqueiro que isto se tornou. Mas em uma coisa ainda há lembranças: eles adoram falar de política, como nós. Só que de uma forma bem menos ética e com partidarismo bem mais explicito.
- Leu?
- Sim.
- Agora posso lhe dizer. Sua máquina do tempo muito se parece com o novo jornalismo, deste tempo em que estive.
- Qual a semelhança?
- Ambos desafiaram a relação espaço x tempo. Você para conhecer, eles para modificar.
Depois do orgasmo, a puta disse fumando um cigarro:
- Transar com você já é bom, imagine recebendo.
Mas eu precisava publicar um texto em meu blog até o fim da aula, valendo nota. Escutei então, saindo de seus lábios:
- Escrever em um blog já é muito complexo, imagine com hipertextos.
Fiquei revoltado e não paguei. Fiquei excitado e não escrevi. Não ganhei nota e nem orgasmo. Merda.

Luto
Meu primeiro amigo foi o Rendi. Veio do Rio Grande do Sul e tinha um rendimento na Barriga, por isso o nome. Precisamos dá-lo. Depois conheci a Meg, também foi para outro lar. O Lupi não deixava os vizinhos dormirem, foi para uma chácara. A Ciça, mais tarde, foi morar com o Lupi. O amigo da mamãe, quando pequena, era um bode. Ele começou a chifrá-la e foi dado. No mesmo dia, trouxeram um pedaço de carne para que mamãe aproveitasse o amigo. Ela não aceitou, é claro. Desde que soube desta história, estou certa de que comer um amigo deve ser muito difícil. Você já me imaginou comendo aquela minha colega da escola que me traiu contando para a profe que eu colei na prova de português? Digo isso porque um dia desses escutei uma conversa da mamãe e suas amigas dizendo que um marido tinha chifrado sua esposa. Pedi o que era chifrar, mamãe respondeu que é trair. Acho que é a mesma coisa que o bode fazia com mamãe. Não é? Esses adultos inventam cada gíria, e ainda dizem que os jovens de hoje em dia estão modificando o vocabulário.
Agora estamos passando mais um momento de muita agonia. O Philip não chifrou o papai nem nada, mas ele está doente. Papai apareceu com o Philip em fevereiro, dia 14, marquei no meu diário. Seus colegas da faculdade resolveram sacanear os novatos – acho que o papai os chama de calouros – e levaram vários pintinhos para que eles cuidassem. Papai gostou de um e trouxe para casa. Aqui já tinha muitos amiguinhos, tem o Lambão, a Laluxa, o Zé, o Ted, e esses dias apareceu a Tequila. O nome do pintinho foi o papai quem deu, em homenagem a o tal de Philip Kotler, o pai do marketing. Nem sei quem é esse filho do Philip, mas eu gostei do nome.
Papai construiu uma casinha para ele, embaixo da janela do quarto, para que depois de grande ele cantasse para acordarmos. Mas ele só fez có-có-có. Hoje de manhã eu acordei com seus có-có-có, que pareciam estar mais intensos, como de dor. Mas o Philip não podia ter dor, ele é tão gordo que nem anda. Papai disse que ele só estava botando um ovo. Só que tudo de dentro do Philip resolveu sair junto com o ovo. Era uma coisa vermelha que saia sangue, papai chamou de oveira. A vovó disse que não tinha o que fazer, só sacrificar. Mas papai chorou.
Levamos em um veterinário bem legal, que disse que a galinha estava muito gorda. É um galo, eu disse. Mas um galo não bota ovo. Este sim. O veterinário disse que não é muito comum curar a oveira de uma galinha, pois elas não são comumente amadas, morrem. Mas papai ama o Philip. Quando voltamos, o Philip começou a sangrar muito. Estava agonizando e quase não respirava. Tentei ficar por perto para espantar aquela mosca verde que estava incomodando. Depois veio o titio e a matou. Ao invés de comê-la, papai a enterrou. Coloquei umas flores
- Filinha, você não vai acreditar em que aconteceu com o Philip hoje.
- Fugiu?
- Não, botou um ovo. Ele na verdade é ela.
- Não papai, ele sempre vai ser ele. Nada muda. Como você diz, a gente escolhe o sexo. Sem preconceitos, por favor.

E aí Mano, caiu com quê?
Sou um pouco romântico para estar aqui, gosto dessas paradas de diário. Acho que é porque faz tempo que não recebo um salve de um camarada. Aqui ninguém confia em ninguém, ta ligado? Os desabafo do veneno desse bobo é na linha mesmo. Puta, seis meses sem um catatau. Na liberdade eu não andava só. Sempre tinha um maluco para botar uma pedra, depois que eu cai, ninguém mando nem um salve.
Hoje cedo tava frio aqui no barraco. Os mano tinham umas mantas, mas eu fiz uns acelera ontem e fiquei na bocuda por um tempo. Por isso dormi só no latro. Estou no veneno mano, pois se eu não fizesse aqueles adianta estaria morto, e, fazendo, só me atraso. Minha caminhada está foda. Estou tentando levar de boa para não me atrasar, mas aqui o bagulho é louco e o processo é lento, como diz o rap.
Se eu tivesse na liberdade, tava de boa, no barraco com a minha véia, só não iria estar limpo. Sem chance na rua. Eu iria usar o meu pisante, a minha bombeta, até a minha coruja, com a minha mina, fumando o meu careta. De boa, sem acelera, sem desacerto, sem mancada, sem cobrança. Ontem um maluquinho com a pinha de criança que caiu aí foi quebra o litro e não ligou a torneira antes. Autos mio. Isso é mancada grave aqui. Ele levou um desacerto até morrer. Os mano amarram uma teresa no gogó e jogaram o cara no boi achando que tava apagado, mas o cara melhorou. Agora ele pode até virar considerado por isso, o cara é forte mano. Fugiu da morte. Ontem ele, hoje pode ser eu mano. Porque para drogado só tem dois caminho: cemitério e cadeia.
Se eu falar que aqui é bom estou jogando areia. A única coisa boa que tem aqui é alimento. Os menor tem muita regalia. O foda é ali do lado, que se a família não levar alimento, come lavagem. Lá, marcou, levou. Aqui tem menor que apavora porque não pode levar desacerto de educador. Mas tem educador que é veneno, têm outros que madeiram para o menor. Cada um com sua caminhada. Para você ter uma idéia mano, tem dia que de moca vem chocolate. Tudo bem que as tias misturam muita água – tem mais que leite – mas é melhor que nada. O marrocos, umas duas vezes por semana, vem com doce. De meio dia vem cambuca cheia, ás vezes boa, como na quinta que vem lasanha e batata frita. Mas eu preferia estar no meu barraco que não tem tranca e a caneca e a chuchara não são de plástico. E tem as minas, é claro. Aqui o que resta é tirar um castelo enquanto a gente passa um pano em revista que tem umas minas bonitas.
Acabou de chagar um maluquinho. Vou parar por aqui para, na maior humildade, passar umas fita para o cara não se atrasar, não dar mio, não vir jogando areia e se empenhar com os irmão do barraco. Falou diário. Até amanhã, se Deus quiser.
- E ai mano. Você é novato na cadeia?
- Sem mancada, sim.
- Qual o teu vulgo?
- Bomba, sem mancada. Sou da vila São João.
- Então mano, aqui não pode dar mio. Quando for quebra o litro, liga a torneira antes. Na hora do alimento, não pode ficar sem peita, não arrota, não escova os dentes, não faz nada. Sempre que passar na frente do barraco dos outros pede licença do barraco, pede licença para o gás. Quando for apavora o boi, pede licença. Não fala obrigado, mas fala agradece. Fica humilde mano, que logo os maluco te consideram. Aos poucos você aprende. Mas e aí mano, caiu com quê?
- Eu peguei uma mina de 10 anos e dei uns trato.
- I mano, que mio. Você não devia ter falado isso. Na cadeia ninguém tolera duque. É numero 13. Você vai morrer cara, os mano ouviram. Puta mano. Vai com Deus para o inferno.
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